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Solstício

2 dez

Eu achava que não ia chorar. Olhava para as minhas mãos e nem pareciam ser as minhas mãos, aquelas que me acompanhavam desde que nasci, a primeira parte do meu corpo da qual senti orgulho, pela qual me apaixonei, o porto seguro da minha auto-estima. Já fui gordinha, os garotos diziam que minha beleza era exótica, mas as minhas mãos sempre foram lindas. Foi a minha avó quem falou, minha avó e toda a sua delicadeza de princesa. Quem não acredita nas princesas?

Cheia de anéis, em 40% dos dedos. Sabe quantos isso significa? Hoje passei protetor solar nelas, pela primeira vez. Acho que não adianta muito, como grande parte dos tratamentos de beleza, mas hidrato, limpo, enfeito. Toda mulher que nunca foi muito bonita sabe descobrir uma arma. Aquela que nenhuma bonita de verdade vai conseguir alcançar. Por isso não gostamos das pessoas lindas por natureza. Por isso que sentimos preconceito com os ex-feios que ficam bonitos iguais aos bonitos. Adoramos os excêntricos.

Um papelzinho besta, rapaz. Tem tanta gente que recebe uns papéis muito piores. Telefonemas piores. Tem gente que vive situações de completo desconforto, como um tatu. Só que o Tatu foi feito pra viver em buraco, enfiado na terra. Não as pessoas.

Essa coisa de ficar pensando na desgraça do mundo para aceitar melhor as próprias desgraças é muito injusta. Mas quem quer saber de injustiça? Quem quer saber do que é certo, do que está errado? Isso não importa. Se olhar de perto, está tudo como tem que ser. A terra está girando, a gente encontra o sol, depois a lua. Ninguém vai viver pra sempre. Pra quê pensar nisso?

Puxa uma cadeira, olha pro céu e relaxa.

Quando

6 set

Quando é o começo do fim de tudo?

Em que ponto o início não é mais meio, dá a volta e vira nada?

Pro dia virar noite, basta uma alvorada.

Que faz um homem a vida inteira senão morrer desde que nasce?

O fim de tudo, de mãos dadas com o princípio.

E o meio?

E o durante?

Questão de tempo.

Até que a noite chegue e a festa acabe, a água esfrie e a luz apague.

Baldeação

31 ago

Você, leitora amiga, sabe que a busca pelo menor preço não vê limites. E a busca pelo cabelo domado segue o mesmo caminho. Junta os dois e voilá. Tá lá você, domingo a noite, rumo aos confins do subúrbio pra fazer o escovão mais barato.

Cena um. Metrô estação Botafogo. Aquela coisa de sempre. Algumas pessoas voltando da praia, outras indo pro jogo do Fluminense. Tranquilo. Aturável. Até descer no Estácio.

Preciso deixar claro que não tenho qualquer problema com o subúrbio. Morei no Engenho de Dentro por mais de vinte anos. Já fiquei trancada em padaria esperando o comércio abrir tão logo acabasse a guerra entre a galera do Morro da Camarista e o Morro da Água Santa. E saí de lá com pãozinho. Comprei brinco na feirinha da Sans Peña, corri atrás de doce em setembro, dancei em coreto, tive medo de fantasia de macaco e brinquei muito em volta da mangueira da casa do meu avô em Inhaúma. Adoro o subúrbio. Por favor, não me processem.

Seguindo.

A estação Estácio aos domingos é quase igual a Lapa. Só não vi passar o Minc. Mas vi um casal que me deixou bastante tensa. Eram dois homens. Até aí ok. Só que um deles estava grávido. E agora? Reflita.

Chegou o metrô. Pelo que entendi, no Estácio se você não consegue sentar, você é um bosta. O metrô chegando na estação e as pessoas se empurrando pra porta. Todos querem entrar primeiro. O trem para e, eu juro, tinha gente com a cara colada no vidro. A cara. Colada, gente. No vidro. Lembrei daquele show do Pearl Jam que morreu gente pisoteada no gargarejo e achei prudente me afastar. A porta abriu e saiu Eddie Vedder da minha cabeça, entrou o festival de Pamplona. Foi o estouro da boiada. As pessoas gritavam, corriam e, enfim, sentavam. O irônico? Sobrou lugar.

Sobrou só até a próxima estação. Acho que todos os habitantes de São Cristóvão entraram naquele vagão. No meu vagão. Pessoas com piscina infantil. Pessoas com bancos de plástico pra sentar no meio do trem. Pessoas se agarrando a dois centímetros de mim. Pessoas se esfregando em desconhecidos sem a menor cerimônia. A despedida de solteira da Portelinha perdia.

Tinha uma menina na minha frente que devia ter uns dezessete anos, apesar de aparentar uns setenta e oito. Ela tinha umas tatuagens nas costas e a vontade que tive foi perguntar que crime ela cometeu, porque não era possível que aquilo tivesse sido feito fora de uma penitenciária.

E tinha a senhora. A senhora do meu lado me perguntou se a próxima estação era Del Castilho-Nova América. Respondi com certa dificuldade que ainda faltava Triagem, Maria da Graça e mais umas duas que, graças a deus, não me lembro. Na estação seguinte, de novo “essa já é Del Castilho?”. Não, senhora. Ainda faltam três. E na seguinte? “Essa já é Del Castilho”. Já. Já é sim, senhora. Acho que ela desconfiou e fez o que deveria ter feito desde o começo: leu a placa. “Ah não, é Maria da Graça ainda”. “Pois é, senhora. Ainda falta”.

E seguimos. Tatuagens com todos os nomes do mundo no antebraço das pessoas. Homens com unhas da mão decoradas com decalque de patinhas. Radinhos tocando todos os hits da Furacão 2000 ao mesmo tempo. Mechas loiras. E eu. De olhos fechados. Focando nos 50% off.

Cheguei. Meu deus. Desci. Respirei. Entrei no salão e achei que estava salva. Ar condicionado. Cheiro de formol. A moça passou aquela química toda no meu cabelo e me deixou sozinha pra esperar o tempo necessário. Amei ela por isso. Eu estava sozinha. Num cadeirão. Com um espelho na frente, uma luz ótima e uma edição de bolso dos diários de Bukowski na mão. Foi o começo do fim.

Comecei a ler o livro. A tradução era ridícula. Me dei conta que era L&PM e me perguntei porque eu estava fazendo aquilo. Tenho outras edições de Bukowski em casa, algumas em inglês, e não é uma leitura difícil. Por que, então, aquilo? No meio dos meus questionamentos literários, chega ele. O Beto. Vocês não conhecem o Beto? Ah, vocês não conhecem nada.

Beto é aquele cara que chega falando alto, de regata da Riachuelo e bermuda de surfista. Beto usa o relógio mais dourado da Terra. Beto tem uma índia tatuada no braço. E Beto não estava feliz com as mechas loiras no cabelo dele. Ele explicou para a cabeleireira que fizeram mechas demais, e que elas estavam verdes, que o que ele queria eram pequenas manchas amarelas. Ela explicou pacientemente que não tem como regredir, ela tem como fazer mechas mais escuras de modo que área loira diminua. Aí ela explicou de novo. Aí ela explicou de novo. E de novo. Ele não entendia a gestalt das mechas loiras e escuras. Se perguntassem a ele se a zebra era preta com listras brancas ou branca com listras pretas, acho que ele sangraria pelos ouvidos. Só nessa hora lembrei que tenho ipod.

Cheguei em casa lá pras 21h. Meu cabelo arrumado. Meu filho dormindo. Meu vinho na geladeira. Meu marido voltando de viagem. Só não tinha House, mas quem precisa? Todo esse relato foi contado às gargalhadas e, no fim das contas, o saldo foi positivo. Apesar de tudo. É bom saber que o lugar de onde você veio continua ali. Talvez irrite mais por isso mesmo. Mas continuam todos ali, lembrando que onde você está agora não é o topo do mundo e que sempre voltamos a nossas origens. Ainda que seja só pra fazer um escovão off e voltar chocada. O choque, no final das contas, não foi com a diferença. Quem sabe. Foi com a semelhança.

Crazy lady

17 ago

Não tem o que fazer. Nem beber eu quero mais.

Tem gente que nasce com a bunda virada pra lua. Tem gente que nem bunda tem, pra ser bússula da sorte. No meu caso, eu posso pelo menos contar com um quadril avantajado e ele é quem deve ter ditado meus caminhos até hoje. Ou, pelo menos, ele tenta.

Desde pequena que eu exerço nos outros…nem sei dizer qual o sentimento. Jájá lembro. Mas, explicando, desde pequena que, não importa se estou certa, sempre estarei errada. Não importa se faço o que devo fazer, não estou fazendo da maneira correta. Parece loucura e vaidadezinha da minha parte? Poderia ilustrar pra você. Mas a questão é que eu não quero.

Tenho uma raivinha discreta de quem consegue só pensar no dia de hoje. Tenho preguiça de quem vem falar sobre futilidade. Eu amo futilidade. Se não fossem as futilidades, sério. Pra mim, até meditação pode ser vulgar. A velha e boa teoria da relatividade. Saca?

Viajei de volta pra casa na calda do cometa e, pasmem, dei de cara com a nebulosa. Sim, no céu do sertão, você só não vê o que não quer. Eu vejo tudo, ah o excesso.

Cansei da esquizofrenia. Meu negócio sempre foi a mordomia. E agora José? Vai fazer rima vazia? Nunca nem quis participar de gincana, bróder, dá pra trazer logo meu troféu preu jogar no lixo?

É que fazer de conta que está tudo bem faz com que nada nunca fique bem. E eu só queria que todo mundo explodisse. Fácil assim. Um dia eu estava feliz agora eu odeio muita coisa. Eu só gosto sabe de quem? De pessoas simples. Sabe, bem simples? Aquelas pessoas que são fáceis, morro de inveja delas. Aliás, eu morro de inveja de tudo. Sou a maior invejosa da face da terra. Quer me prender? Corra, meu bem, porque você não vai me alcançar. Sabe porque? Por que eu sou invisível.

Eu costumava gostar disso. Mas acho que sempre foi uma mentira.

Sabe o que mais?

Agora fudeu.

Esse texto não é pra vocês

12 ago

O que eu tinha lá? Tinha paz? Tinha. Tinha dinheiro? É… Tinha amigos? Ô. E tinha abelhinhas voando, e quintal dos fundos, e o posto da esquina, e bom papo, horário certo. Tinha os ceguinhos causando tumulto no ônibus. Tinha shopping logo ali. Tinha amigos do antigo trabalho logo ali. Tinha tudo logo ali. Silêncio na rua. Barquinhos. Boa companhia, daquelas que elegem a mesma pessoa que você pra coroar como sua majestade o chato da sala. Almoço na varanda com súbita invasão de sua majestade o chato em comum. Tinha identificação instantânea, boas risadas e um monitor gigante. Tinha só um problema: data pra acabar. E tava chegando.

Inevitavelmente chegou. É chato ser a primeira a deixar a festa, ainda mais por iniciativa própria. Levantar e sair. Ficar pensando que alá, lá estão eles, rindo, calmos e bem resolvidos apesar da minha ausência. Apesar de mim. Recalquinho? Saudade ou ciuminho? E penso que não é a primeira nem a última vez que mudo de trabalho e deixo amigos pra trás. Isso vai acontecer um milhão de vezes. Se tem uma coisa que faço fácil é amigos. Outra é mudar de trabalho. Então respira.

Foca no novo. O que tem agora? Paz? Menos. Dinheiro? Mais. Amigos? Aí que tá. Como os de lá? Não. Não tem a mesma tranquilidade, não tem o mesmo espaço. A mesma certeza de estar entre iguais. Tem um monte de gente, mas não conheço ninguém e ainda estou na fase de sentir preguiça de tudo que já não seja meu. A maldita mudança. Sair da bendita zona de conforto. Trocar os ceguinhos da Pasteur pelos doidinhos da Rio Branco. Não passear. Não achar o céu. Ter um terço de monitor e o teclado com o TAB mais duro do Rio de Janeiro. Tudo fica chato. Mas ter estabilidade. Estabilidade é bom. Estabilidade paga conta. Estabilidade permite ter dinheiro sempre pra sair com os amigos que você escolher. Estabilidade é bom. Vai, Juliana, é mantra. Ohm estabilidade é bom.

Primeiro dia no trabalho novo. Faz com que a gente escreva textos confusos e aburridos. Textos que não levam ninguém a lugar algum e terminam do nada. Só de raiva. O gráfico de audiência não sobe nem 5% e eu nem ligo, porque esse texto é só pra mim. Pra dar vazão a pessimismo. Pra lembrar que a vida às vezes é chatinha que só e o que é bom a gente tem que carregar pra sempre. Pra aceitar que local de trabalho às vezes é só dinheiro na conta mesmo e mais nada, e que os amigos a gente vai continuar encontrando, mas só depois das 19h, na vida lá fora. Das 8h às 18h, o jeito é aturar essa terrível sensação de estar sozinha entre estranhos. Até o tempo passar, eu mudar de trabalho e começar tudo de novo.