Arquivo | setembro, 2011

Chatinha

15 set

Não é a primeira vez que te escrevo. Pra falar a verdade, você me escrevia muito mais, mas geralmente depois de um porre. Eu sempre te respondi sóbria. Você sentava bêbado no seu iMac imenso e digitava e digitava. Dizia que eu te inspirava. Dizia que eu te amedrontava. Dizia até que, na falta de marido, servia eu mesmo. E me ligava no dia seguinte, trancado no banheiro, pedindo desculpas e dizendo que tinha um homem chatíssimo no seu quarto, ai, tira ele daqui. Eu te dispensava, prática que só, dizendo ué, não mandou ele entrar? Agora manda sair.

Você me ligava durante jantares de família pra nada, pra me afrontar, só porque lembrou de mim, só pra falar, ih, que saco essa vida. E eu te ouvia, às vezes, mas desligava e pensava ah, ele precisa parar com isso.

Mentira, eu adorava ser a escolhida dos telefonemas de madrugada. Entre tantas em volta de você, era pra mim que você ligava pra dizer que nunca tinha me visto tão linda. Para as outras, você escrevia insultos. Para mim, não. Você me ligava só pra reclamar da vida. Éramos dois reclamões. E reclamávamos das mesmas coisas, era tão lindo. A gente sentava pra almoçar, e passávamos horas rindo da obrigação de ser educado e gentil e comunicativo. Combinávamos em tantas coisas e, ao mesmo tempo, éramos tão diferentes na nossa essência que, sinceramente, não sei como nos aguentamos com tanto carinho por tanto tempo.

Eu nunca entendi muito bem o que te atraía em mim. Eu te dava cada patada, e você gostava tanto de quem eu desprezava. Como pôde? Dizem que até fisicamente nós éramos parecidos. A gente descia pra falar mal da vida, e sua gargalhada alta e grave enchia o ambiente e me dava mais vontade de te fazer rir até você ficar sem ar. Quando você estava feliz, era bonito de se ver.

Eu nunca entendi como você conseguia viver submerso no caos, tão pisciano, tão só do seu jeito. Eu só tinha vontade de me meter na sua vida e te organizar todo, mas só pra ver como você se bagunçaria de novo em pouquíssimo tempo. Éramos como um pêndulo, às vezes pro seu lado, às vezes por meu, e assim íamos nos equilibrando pela vida, pela amizade, pelo amor.

Por que amor tem que ser só coisa de casal?

Agora que você foi embora, no meio do turbilhão que você deixou dentro de mim, ficou a sensação de alívio por ter te falado pelo menos uma vez, com todas as letras, tchau, querido, eu te amo, viu? Você me abraçou bem forte, acho que até fez carinho no meu cabelo, que estava bem curtinho (ele está curtinho de novo, você não sabia) e foi embora sem responder nada. Eu nem liguei. Não precisava de resposta mesmo.

Depois que você foi embora, eu fiquei louca. Você, que adorava me ver surtando em cena, aplaudiria de pé. É muito difícil esquecer você, esquecer o que aconteceu. Eu fico achando que se eu parar de pensar em você um dia, se eu parar de pensar no último dia que te vi, bem ali, deitado de olhos fechados, você vai sumir pra sempre, e eu, justo eu, eu não posso fazer isso com você. Nossos amigos tentaram me consolar, disseram que você me admirava muito, que gostava de mim de verdade, mas de que adiantou?

Depois que você foi embora, meu amigo, eu fiquei aqui. Aprendendo mil coisas que você adoraria saber. Imaginando quem escolheu suas roupas naquele dia. Pensando se você estava com aquele tênis azul da Zara que eu achava a sua cara. Tentando me convencer de que não era você. Não podia ser. Que merda é essa? Será que você pensou em mim aquele dia? Será que doeu ir embora daquele jeito? E se eu tivesse te ligado bem naquela hora, só pra perguntar cadê você na minha vida?

Olha, eu acho que não sabia o tanto que eu gostava de você, mesmo tendo dito que te amava aquele dia. Agora que você foi embora, eu vejo todo o espaço que você ocupava, espaço que agora está vazio que só, um eco danado.

Sabe, eu não quero nem saber se você era gay ou se não era, se me amava de volta ou se eu era só companhia para um almoço. Tudo que eu queria era lembrar da última vez que nos abraçamos. E te dar um último beijo de boa noite. E dizer dorme bem, amigo, que eu continuo te amando daqui.

E nem adianta me chamar de chatinha.

 

Um beijo,

J.

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