Existência defensiva

18 out

O trânsito diz muito sobre a verdadeira índole de alguém. Não adianta fazer doações na conta telefônia ao LBV ou mandar aquela cartinha pro AACD com 50 reais de vez em quando. Não adianta se gabar que bebe pouco e respeita os homossexuais, ou que ama os animais e separa o lixo se, ao chegar no carro, você se comporta como um psicopata.

Esse negócio de direção defensiva é muito maduro para o ser humano, desculpa. Deve existir uma sociedade super evoluída onde as pessoas andam com uma percepção periférica do ambiente. Veja que, se estamos falando de uma coletividade, quer dizer que, o que quer que represente sua vontade deve ser repensado em função do funcionamento da comunidade.

O que seria esse tipo de sentimento? Vou explicar. Sabe quando a gente vê uma criança mal educada, chatinha, batendo em um cachorro ou tirando catôta e colocando na comida? Na sua comida, pro exemplo ficar melhor. Você pode ficar puto e não se meter, afinal, a criança deve ter pais e em briga de marido e mulher ou na educação dos filhos do outros, ninguém deve meter nada, muito menos palmadas. Pois eu sou o tipo que fica se coçando pra dar uma reprimenda nesse infante. Na verdade, eu até dou, se tiver oportunidade. Palmada não, take it easy. Só uma bronquinha de leve. Não fique aí me xingando, achando que não é da minha conta. Exatamente porque você pensa que não deve se meter que o trânsito está cheio de criminosos. Quiça você é um deles. E qual a relação? A relação é que você não está sozinho no mundo, meu caro.

Você deve ser daqueles que, em um dia de chuva, com pouca visibilidade e muita água na pista fica dando rabiada, jogando lama no carro vizinho. Ou pior, você é daqueles que colam o fucinho do seu carro na traseira de alguém e ficam dando luz alta, ameaçando a paz da criatura que carrega o bebê, a mãe idosa ou que simplesmente prefere respeitar os limites de velocidade. Sabia que o limite de velocidade quase nunca ultrapassa os 110km/h? Certamente nenhum dos 3 carros que vi capotados hoje, na Rio-Santos, sabia.

A gente tem poucas oportunidades de mostrar nossa civilidade e, principalmente, boas intenções, no dia-a-dia. Trabalhamos muito, pagamos muitas contas, temos muitas relações para administrar. Nem sempre é fácil. A maioria das vezes não é. Quando nos deparamos com uma figura fora do eixo na boate, no trabalho, quando lemos a respeito daquele cara que perdeu a cabeça e matou a mulher ou prendeu a filha no porão, a primeira coisa que pensamos é: ainda bem que eu não sou assim.

Mas se você entra em um carro e vira o rei da máfia, cheio de poder motorizado, se você acha que buzina é metralhadora, se voce acha que quem dirige devagar é um retardado, cuidado. Talvez você não seja tão bonzinho quanto imagina.

6 Respostas to “Existência defensiva”

  1. alexcamilodemelo 19/10/2010 às 13:08 #

    Muito lúcido o texto, minha cara amiga, de uma lucidez de dar vergonha nos “neandertais” do volante. Quanto a metáfora dos infantes, muito me incomoda esse tempo de crianças malcriadas e “cheias de querer”. Em nossa infancia para se ter voz e liberdade era preciso merecimento, era preciso que fossemos bons meninos e meninas, era uma conquista. Eu compreendo que hoje tudo está mudado, que mesmo nas familhas com pais e mães presentes, não se dedica o tempo necessario à educação dos filhos de maneira adequada, passando-se essa tarefa para babás humanas, eletrônicas e virtuais. Isso acaba gerando um sentimento de culpa nos pais e uma necessidade de compensação pela ausencia, que se transmuta em tolerencia excessiva, exagero de recompensas materiais e escacez de exemplo. A consequencia de tudo isso é a transformação de criancinhas inocentes em tiranos amorais, que não medem esforços para conseguir tudo o que querem. No final das contas culpa-se a falta de tempo, tanto no transito quanto na educação dos filhos. O que não é justificativa levando em consideração todo o tempo que a tecnologia nos faz ganhar. pode ser que mais uma vez eu ouça: você não sabe o que está falando, pois não tem filhos! Mas eu fui criança, fui filho, sou irmão, primo, tio e até tio avô e nunca esqueci o quanto ter limites foi importante para o que eu sou hoje e confesso que morro do medo do mundo dominado por um monte de gente que não aprendeu a aceitar um NÃO como resposta.

    • Lia Valengo 19/10/2010 às 13:48 #

      Exatamente, Alex. Acho interessante que se pense novas maneiras de educar, de acordo com a época, as necessidades etc. MAs colocar limite tb é educar. E vou mais longe, acho que é obrigação de todo adulto interferir na educação de toda criança. Assim como é dever civil avisar sobre o lixo no chão, sobre o fura fila, sobre sei lá o que. Nós somos muitos passivos, aceitamos com muita facilidade o mal feito alheio. Eu não consigo.

  2. Tyara 19/10/2010 às 14:53 #

    Tem gente que pensa que vive numa bolha e sabe o que é o pior Lia? é que esses são os mesmo que dizem “foi sem querer” depois que você tá fudido por causa de uma merda deles. E é na base dessa desatenção com o outro, desse olhar somente para o próprio umbigo, inclusive praticada por quem não está ao volante, que a gente vai caminhando. Eu tenho é medo.

    • Lia Valengo 19/10/2010 às 19:33 #

      Eu tenho medo tb. Muito. Mas acho que tenho mais coragem pra ficar com o coração aberto.

  3. umyogue 21/10/2010 às 00:43 #

    Por isso que eu não dirijo. Ninguém vai descobrir qual é minha índole só pelo transito! :p

    Fora a brincadeirina, ta certíssima. Estes momentos de volante na mão parece que dão aval a loucura das pessoas. É como uma arma em punho, uma espada, uma pedra. Tem gente que se sente no poder e daí FODEO. Prefere ter razão a evitar uma batida.

    Vai entender.

    • Lia Valengo 21/10/2010 às 09:59 #

      Eu acho que as pessoas pensam que no carro ficam invisíveis. Mas não deve ser difícil saber se comportar, é uma boa prática tentar ser um motorista calmo.

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