ELIZABETH, A RAINHA LOUCA

2 ago

Ando pensando seriamente em tomar um remedinho. Anos e anos de tentativas frustradas e masoquistas de segurar minha própria onda, vou deixar pra lá, quero ser quem nem essas pessoas que vivem flutuando de felicidade, que dormem bem, enfim, essas pessoas que “tomam tóxicos”.

Eu já esqueço mesmo de muita coisa. E se não for um aneurisma, deve ser meu cérebro se preparando pra só guardar o que importa. Se bem que, ele se esquece do que importa, tenho que retratar esse dado da minha memória. Eu costumo esquecer o que importa e fico me segurando só nas pequenezas, deve ser por isso que não durmo. Passo dias e mais dias remoendo o desconforto de uma conversa com um babaca que insiste em falar comigo me chamando de linda.

Toda vez que vejo a palavra linda, começo tremer. Vem o L, puta merda, de novo? E o I, esse cara não tem criatividade? N, ah vai tomar no cu, vai logo nessa merda. E por fim, ele fala comigo como se eu fosse uma retardada.

Ele não presta atenção a metade das coisas que falo. Ele parece aqueles caras que trepam se olhando no espelho, sabe? Só que ele faz isso com sua desenvoltura intelectual.

Meu maior problema é que eu sou viciada em sentir raiva. Eu podia achar fofo esse amigo, achar fofo que ele pense em mim como uma garota delicada, uma menina boba pra quem ele precisa explicar as coisas com paciência. Daí o “linda”. Mas a verdade é que, além de raivosa, eu tenho medo de gente egocêntrica. Esse povo que não presta atenção ao que você tem a dizer, esse povo que gosta de se auto-afirmar fazendo você se sentir inferior. No meu caso, sentindo o sangue ferver.

Linda, só quem pode me chamar é meu amado, que aí eu sei que é verdadeiro e sem nenhum tipo de prepotência.

Por isso preciso tomar remédio. Pra não parecer um siri na lata. E também porque gostaria muito de dormir. Eu nem lembro quando foi que consegui dormir direito. Apagou a luz e todo o vazio que me acompanhou durante o dia resolve se encher bem ali no travesseiro.

Nem ronco mais. Tinha um certo orgulho de roncar, sabe? Até porque, eu não tinha outra opção a não ser aceitar que ronco. Mas eu não ronco mais. Eu mal chego no estágio do sono pra entupir meu nariz.

Estou cansada de fingir que sou leve. Queria mesmo era pirar, dar vazão, quebrar tudo. Mas eu fico só latindo, latindo e na hora H, eu fico com preguiça. Sério, uma preguiça. Uma preguiça meio covarde, uma preguiça cheia dessa mania que eu tenho de não me enganar. Minha insónia é excesso de realismo, de sinceridade.

Eu conto com meu marido Yogue e com o carma dele. Eu conto com seu beijo de boa noite, seu beijo de bom dia, seu amor constante. Conto com a presença espiritual do povo que está longe, minha Mãe, minha Titija, da minha irmã, as minhas amigas, conto com meu Pai, com meus irmãos. Eu sei. Mesmo assim, poxa, estava precisando de um tiquinho de nada de um sono apático, de um sono limpo, de um sono mentiroso.

14 Respostas to “ELIZABETH, A RAINHA LOUCA”

  1. Ju Dominguez 02/08/2010 às 15:20 #

    Esse linda debochado é demais. Prefiro que me mandem a merda logo de uma vez.

  2. quel 02/08/2010 às 15:24 #

    disse lá e repito aqui, esse texto é merthiolate sem sopro em cima da fratura exposta.
    admiro demais essa tua capacidade de lavar a roupa suja assim, na calçada, sem medo da vizinha, das conveniências, dos ditados que já não servem.
    você é tão de carne e osso lia, tão de verdade, e isso é lindo de ver.

    • Lia Valengo 02/08/2010 às 15:31 #

      É que não cabe em mim, Quel. Assim como não cabe a felicidade pelas tuas visitas. :)

  3. @aperteoalt 02/08/2010 às 15:28 #

    “Um sono mentiroso.” Sensacional. Eu o tenho há tanto tempo que já não reconheceria um que não fosse.
    Mas, como você bem disse, é o que é.
    Beijos.

    • Lia Valengo 02/08/2010 às 15:29 #

      Palavras são só palavras. Só a gente sabe o que se passa, né não? Beijocas amigo!

  4. lanusse 02/08/2010 às 16:20 #

    “Estou cansada de fingir que sou leve.” – Yep! Fingir não serve de nada pra gente de verdade feito você, Lia. Taca um grito verdadeiro na orelha deles. :)

    • Lia Valengo 02/08/2010 às 18:36 #

      né? eu grito e tu me segura, beiboca da parafuseta.

  5. umyogue 02/08/2010 às 18:16 #

    Ih óh… Tenho uma boa indicação. Tu sabe né. Dormindo que nem bebê depois de anos de tormenta. E não quebra nada não que é prejuizo. CONFIA

    hahahaha

    • Ju Dominguez 02/08/2010 às 18:19 #

      Adoro os doidos todos reunidos. Adoro vocês, viu.

    • Lia Valengo 02/08/2010 às 18:35 #

      hahahahahahahaha, ah, realmente, vc é tipo, ins-piração. ;)

  6. Lanny 02/08/2010 às 19:33 #

    Olhando pra vc, não tem quem diga que pode se rum siri na lata! Não dá pra dizer que “olha, por favor, não gosto que me chamem de linda”? Vai que ele leva numa boa…. É uma pedra a menos no sapato e quem sabe uma horinha a mais de sono… ;) Conte com a cunhada aqui!

    • Lia Valengo 02/08/2010 às 19:35 #

      É mesmo, viu? Eu podia só dizer isso, que não gosto. Mas sabe o que é? Admitir as neuroses, só mesmo assim, na literatura. Pq fica meio verdade, meio mentira, nem eu sei nem ninguém vai saber. hehehehehehehehe

  7. Tyara 03/08/2010 às 16:43 #

    Lia, eu tenho medo desse texto, ele desperta aquela fúria adormecida pela convenções.

    • Lia Valengo 03/08/2010 às 21:41 #

      É uma fúria mansa, sabe como é?

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