Um dia surgiu, brilhante, entre as nuvens, flutuante, um enorme zepelim

9 jul

Ultrassonografia transvaginal.
Todo ano a gente encara uma dessas. E não é uma coisa discretinha, facilzinha. É um tal de colocar avental com abertura pra frente, tirar a roupa toda e ficar ali, naquela sala gelada, melecada de gel (sem preliminar!).
Mas a gente vai, afinal, é saúde, tem que pesquisar, tem que ver se estamos limpinhas e sadias. Nós e nossos úteros e ovários, benditos.
Na sala de espera, muitas mulheres idosas, na televisão, o goleiro Bruno é acusado de matar, desossar e dar pros cachorros o que seria a mãe de um filho seu.
Chocante.
Tão chocante quanto as opiniões sobre o assunto, ainda um tabu, ainda dividindo as pessoas.
Quer dizer que estamos em 2010 e eu aposto como existe no mundo um cientista maluco que descobriu o teletransporte. Mesmo assim, as pessoas têm coragem de chamar a vítima do goleiro de vagabunda, vadia, oportunista enquanto ele, machão, se descompassava (oi?); matava e alimentava seus amigos, os cães.
Eu ouvi. Eu fiquei vermelha, mas eu não quis mais discutir.
Mulher que discute muito é chamada de mal amada, coisa que não sou.
O que eu sou é inquieta e indignada com a barbaridade do mundo.
Eu sou indignada com a chance, na nossa frente, de fazer o certo, e a escolha por fazer errado.
Alguns garotos, mesmo que sejam homens, continuam se colocando lado a lado para medir o tamanho de suas pitocas.
Depois eles se aglomeram para ver mulheres nuas como faziam nos clubinhos aos 11 anos.
Nada contra, mulher nua é lindo.
O que me confunde é que achem lindas, as mulheres, e também vagabundas.
Quando chamam qualquer mulher de vagabunda, e chamam bastante, me choca da mesma forma que se referem a tudo que é feio de “paraíba”.
Não consigo entender nenhuma das duas analogias sendo que a primeira é mais violenta, afinal, todo mundo tem mãe, né?
Bruno deve odiar a sua mãe.
Eu tenho pavor de vulgaridade. Pavor. Mas pavor mesmo eu tenho de hipocrisia.
Vai falar de cocô, por exemplo, que aí negócio fica tenso. Pode matar, desossar, pode violentar meninas, mas falar de cocô, nope.
Tem quem aguente?
Furacões e tornados.
No final das contas, o tamanho não importa mesmo. Não define mesmo.
Eles vão continuar medindo. Eles não sabem, bichinhos.
Mas não importa mesmo.
O único tamanho que importa é o tamanho da vontade de fazer o que é certo.

14 Respostas to “Um dia surgiu, brilhante, entre as nuvens, flutuante, um enorme zepelim”

  1. Vanessa 09/07/2010 às 11:10 #

    “Mulher que discute muito é chamada de mal amada, coisa que não sou.
    O que eu sou é inquieta e indignada com a barbaridade do mundo.”

    mto bom. me vi nessas palavras. vou twitar o blog de vcs!

    • Lia Valengo 09/07/2010 às 11:14 #

      Se tu que é linda se identifica, tÔ bem, visse? :) Beijocas!

  2. quel 09/07/2010 às 12:24 #

    um monte de coisas do teu texto refletem o que penso e o que sinto (esse trecho que a vanessa destacou, por exemplo, é divino e certeiro).

    mas vou só dizer uma coisa. queria ter nascido com um pau entre as pernas não… tenho um orgulho da porra de ser mulher, e mulher nordestina e muito bem amada, sim senhor.

    eu já disse que adoro esse lugar aqui?! pois então. :)
    beijo!

    • Lia Valengo 09/07/2010 às 12:34 #

      pos é, amada. nem eu, adoro ser mulher, adoro o feminino e, como vc falou, sinto orgulho de ser mulher nordestina bem amada sim senhor. :).

  3. isabela dantas valengo 09/07/2010 às 13:27 #

    Valores Invertidos. Não nos importa o movimento pelo movimento, o gesto apenas por objetivos fisicos. Nos importa sim, o movimento integrado com a participaçao da alma. yayá

    • Lia Valengo 09/07/2010 às 16:24 #

      É isso mesmo, mainha. E eu sou o que sou por tua causa.

  4. 09/07/2010 às 15:19 #

    “O único tamanho que importa é o tamanho da vontade de fazer o que é certo.” exatamente isso.

    adoro ler seus textos pq sempre é uma realidade bem escrita.

    • Lia Valengo 09/07/2010 às 16:25 #

      E eu adoro que você visite e comente! ;)

  5. @aperteoalt 09/07/2010 às 18:37 #

    Chamar de “vagabunda” serve pra justificar pra si mesmo a própria incompetência para a conquista da garota; ajuda a justificar o injustificável, a afastar de si, um pouco, a realidade. No caso da Eliza, pensar que “ela mereceu” ajuda a digerir o que não é digestível, é a forma de pretender que o mundo não é tão bizarro quanto, de fato, é.
    Qualquer preconceito exime o preconceituoso de culpa e ao mesmo tempo o coloca numa posição de “ser humano melhor”.
    E no final é só o vazio.

  6. Laís 10/07/2010 às 18:32 #

    Lindo, Lia! Lindo. Vcs escrevem muito bem. Eme emocionam pra valer, beijos.

  7. Ju Dominguez 11/07/2010 às 17:19 #

    O texto tá lindo, e com tanta coisa bonita eu fui logo curtir a parte do cocô. Hahaha, é isso aí mesmo. Você recebe foto de acidente com pessoas estraçalhadas E TÁ OK. Agora, experimenta mandar uma foto de cocô. Não que eu curta, POR FAVOR, mas jamais entenderei essa lógica.

    • Lia Valengo 11/07/2010 às 20:33 #

      Exatamente, amiga. Não que eu curta cocô, apesar de ter que curtir afinal, foi aceitando o cocô que eu resolvi minha prisão de ventre. hahahahaha Mas a questão é essa, a hipocrisia. Aceita-se tantos absurdos mas a fezes, oh céus.

  8. barbara 15/07/2010 às 12:32 #

    lia! ta demais isso aqui! voce escreve de um jeito que eu adoro ler. to sempre acompanhando. bjs

    • Lia Valengo 15/07/2010 às 16:03 #

      ahh, vem mais, vem sempre!!!! e pode fazer contribuições, viu?
      Bjs fofura!

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