Chatinha

15 set

Não é a primeira vez que te escrevo. Pra falar a verdade, você me escrevia muito mais, mas geralmente depois de um porre. Eu sempre te respondi sóbria. Você sentava bêbado no seu iMac imenso e digitava e digitava. Dizia que eu te inspirava. Dizia que eu te amedrontava. Dizia até que, na falta de marido, servia eu mesmo. E me ligava no dia seguinte, trancado no banheiro, pedindo desculpas e dizendo que tinha um homem chatíssimo no seu quarto, ai, tira ele daqui. Eu te dispensava, prática que só, dizendo ué, não mandou ele entrar? Agora manda sair.

Você me ligava durante jantares de família pra nada, pra me afrontar, só porque lembrou de mim, só pra falar, ih, que saco essa vida. E eu te ouvia, às vezes, mas desligava e pensava ah, ele precisa parar com isso.

Mentira, eu adorava ser a escolhida dos telefonemas de madrugada. Entre tantas em volta de você, era pra mim que você ligava pra dizer que nunca tinha me visto tão linda. Para as outras, você escrevia insultos. Para mim, não. Você me ligava só pra reclamar da vida. Éramos dois reclamões. E reclamávamos das mesmas coisas, era tão lindo. A gente sentava pra almoçar, e passávamos horas rindo da obrigação de ser educado e gentil e comunicativo. Combinávamos em tantas coisas e, ao mesmo tempo, éramos tão diferentes na nossa essência que, sinceramente, não sei como nos aguentamos com tanto carinho por tanto tempo.

Eu nunca entendi muito bem o que te atraía em mim. Eu te dava cada patada, e você gostava tanto de quem eu desprezava. Como pôde? Dizem que até fisicamente nós éramos parecidos. A gente descia pra falar mal da vida, e sua gargalhada alta e grave enchia o ambiente e me dava mais vontade de te fazer rir até você ficar sem ar. Quando você estava feliz, era bonito de se ver.

Eu nunca entendi como você conseguia viver submerso no caos, tão pisciano, tão só do seu jeito. Eu só tinha vontade de me meter na sua vida e te organizar todo, mas só pra ver como você se bagunçaria de novo em pouquíssimo tempo. Éramos como um pêndulo, às vezes pro seu lado, às vezes por meu, e assim íamos nos equilibrando pela vida, pela amizade, pelo amor.

Por que amor tem que ser só coisa de casal?

Agora que você foi embora, no meio do turbilhão que você deixou dentro de mim, ficou a sensação de alívio por ter te falado pelo menos uma vez, com todas as letras, tchau, querido, eu te amo, viu? Você me abraçou bem forte, acho que até fez carinho no meu cabelo, que estava bem curtinho (ele está curtinho de novo, você não sabia) e foi embora sem responder nada. Eu nem liguei. Não precisava de resposta mesmo.

Depois que você foi embora, eu fiquei louca. Você, que adorava me ver surtando em cena, aplaudiria de pé. É muito difícil esquecer você, esquecer o que aconteceu. Eu fico achando que se eu parar de pensar em você um dia, se eu parar de pensar no último dia que te vi, bem ali, deitado de olhos fechados, você vai sumir pra sempre, e eu, justo eu, eu não posso fazer isso com você. Nossos amigos tentaram me consolar, disseram que você me admirava muito, que gostava de mim de verdade, mas de que adiantou?

Depois que você foi embora, meu amigo, eu fiquei aqui. Aprendendo mil coisas que você adoraria saber. Imaginando quem escolheu suas roupas naquele dia. Pensando se você estava com aquele tênis azul da Zara que eu achava a sua cara. Tentando me convencer de que não era você. Não podia ser. Que merda é essa? Será que você pensou em mim aquele dia? Será que doeu ir embora daquele jeito? E se eu tivesse te ligado bem naquela hora, só pra perguntar cadê você na minha vida?

Olha, eu acho que não sabia o tanto que eu gostava de você, mesmo tendo dito que te amava aquele dia. Agora que você foi embora, eu vejo todo o espaço que você ocupava, espaço que agora está vazio que só, um eco danado.

Sabe, eu não quero nem saber se você era gay ou se não era, se me amava de volta ou se eu era só companhia para um almoço. Tudo que eu queria era lembrar da última vez que nos abraçamos. E te dar um último beijo de boa noite. E dizer dorme bem, amigo, que eu continuo te amando daqui.

E nem adianta me chamar de chatinha.

 

Um beijo,

J.

Que ano é hoje?

18 maio

De vez em quando a gente acorda com a testa toda enrugada, a tal da “cara amassada”. É uma realidade. E a gente tende a fugir da realidade, não quer saber de encarar, mas ela aparece, cedo ou tarde. As coisas que precisam acontecer, acontecem. Envelhecer é uma delas.

Você se olha no espelho, de um dia pro outro e vê todas aquelas ruguinhas. Enquanto tenta não se desesperar, reza pra que ao longo do dia o colágeno volte para o local, com medo que ele seja tal qual o amante malandro que disse ter ido comprar cigarros e nunca mais voltou. Na espera, você aproveita para começar a aceitar aquele conselho repetido à exaustão nas revistas de beleza: protetor solar, óculos escuros, hidratante etc etc etc e tome etcs.

O pior de ter 30 anos não é, de longe, o pé de galinha, o bigode chinês, a pele flácida. A única coisa realmente chata é que, se aos 15 você queria parecer mais velha, se aos 22 você disfarçava para ser respeitada no trabalho, se todos se diziam surpresos quando você confessava ter 26, aos 30 você é isso tudo. Você parece ter comemorado todos os seus incontáveis anos. Não tem mais aquele suspiro de admiração quando você diz que tem 32. Não tem mais aquele maravilhoso comentário: “Nossa, mas você parece ser mais nova!”.

O garoto de rua vai te chamar de tia e naquela loja bonitinha, cheia de meninas homogêneas, você vai ser chamada de senhora. Pior, quem vai te chamar de senhora é de fato, uma senhora. Porque mulher é assim, meio maldosa, ela sabe onde o calo machuca. Ela carrega, mesmo sem querer, a convicção de que, depois dos 30, estamos todas envelhecendo, “amorecos. Somos todas jovens senhoras, não adianta disfarçar com tênis de cano alto ou saia jeans muito curta ou aquelas calcinhas enfiadas na bunda.

Aí eu penso, não, nada disso. O colágeno pode até nunca mais voltar mas, eu que não vou cair nessa loucura. Vou abraçar o lado bom, que é poder usar as roupas mais legais sem ter aquela obrigação de sair seduzindo, afinal, eu tenho 30 anos, meu tipo de homem não é mais aquele cara cheio de testosterona desenfreada. Eu só quero a testosterona bem utilizada. Eu nem preciso mais dar pra qualquer um porque o sexo foi resolvido. Imagina fingir orgasmo? Não depois dos 30.

Só que aí eu penso que deve ser delírio e até um pouco de inveja da juventude alheia. Não importa. Por via das dúvidas, melhor não esquecer de todos os etcs diários na minha pele nem de renovar meu estoque de calcinha fio-fio dental, afinal, aquela parte que eu não preciso sair seduzindo todo mundo era pura mentira.

Lunar

20 dez

Não sei se eu saberia explicar.

A vontade existe, de colocar cada centelhinha dessa do que sinto virar uma edificação enorme, uma casa dos anos 70, cobogós e pergolados.

Alguém falou, ouvi, que a lua estava clara demais. É que a gente está mais perto, pensei, e olhe só que coisa mais maravilhosa: amar uma distância. Escolher e fincar o coração  no ângulo perfeito, sua maneira de ver o mundo.

Toda noite tem uns grilos festeiros e de manhã, os  passarinhos saúdam o novo dia. Doroty já dizia.

Difícil mesmo é dizer o que eu gostaria que fosse; a gente se acostuma com a falta.

Todo mundo pensa que é difícil. Ficam querendo colocar cortinas, tirar as legendas. É um tal de colocar a trilha sonora errada, quando a música deveria ser calma ela acaba sendo agitada demais.

O silêncio já tem muitos sons e isso é simples como o amor deveria ser.

Gente, olha pro céu

15 dez

Será que colchão é como malha velha, que esgarça e cresce? Que tem prazo de validade eu já sei. Dez anos, eles anunciam. Dez anos de garantia. Uma garantia que não vale se você trepar em cima, ou dormir, ou cochilar no meio da tarde. Fazendo tudo isso, dura pelo menos 3. Se você dividir o preço astronômico que cobram por um punhado de molas e aquela caixa de cupim que chamam de cama, é como se você pagasse 3 reais para dormir toda noite. Em média. Isso quer dizer que pode ser mais ou menos. Depende do quanto sua coluna vai agüentar.

A minha coluna não agüenta mais. Mas o que incomoda mesmo é que o danado não cabe mais no Box, fica saindo por todos os lados. Não consigo entender quem consegue dormir em um colchão flutuante que dirá em um colchão que sai pelas laterais. Bons tempos das camas tradicionais. Todo dia a mesma coisa. Empurra, mede, empurra, bate, empurra, estica, empurra me jogo, empurro não me mexo, empurro, droga, esqueci de ligar o ventilador, empurro apago a luz, empurro ufa.

Duvido que alguém que sinta dor de cabeça todo santo dia tenha coragem de escutar muita besteira. Ou viver muita besteira. Para uma pessoa que sente dor, o ideal seria a ordem pura. A ordem como um consenso. Coisa linda. Pessoas educadas, gentis, elegantes. Seria o fim de homens machistas ou mulheres idem. O fim de pessoas que furam fila, de pessoas que sentam no banco reservado para idosos etc, seria o fim das celebridades de redes sociais. Sabe? Seria o fim das mulheres que mostram calcinha e dos homens que ainda procuram aquela mulherzinha pra casar.

É muito esforço que se faz para gostar de gente.  Gente nem tem instinto animal. Gente gosta de hipocrisia, de ser contra homossexuais ou aborto. Me dá um dorflex. Gente aceita a estupidez dos preços do aluguel. Neosaldina. Na hora de pagar conta em bar, não importa se você tomou todo o espumante do mundo, é de praxe deixar “trintinha”. Advil. Gente escuta o chefe contando piada infame e sexista e faz cara de quem está achando legal porque ainda existe quem acha que lugar de mulher é no atendimento. Gente.

São só alguns centímetros, toda noite. Empurra, bate, mede, deita e começa tudo de novo.

Solstício

2 dez

Eu achava que não ia chorar. Olhava para as minhas mãos e nem pareciam ser as minhas mãos, aquelas que me acompanhavam desde que nasci, a primeira parte do meu corpo da qual senti orgulho, pela qual me apaixonei, o porto seguro da minha auto-estima. Já fui gordinha, os garotos diziam que minha beleza era exótica, mas as minhas mãos sempre foram lindas. Foi a minha avó quem falou, minha avó e toda a sua delicadeza de princesa. Quem não acredita nas princesas?

Cheia de anéis, em 40% dos dedos. Sabe quantos isso significa? Hoje passei protetor solar nelas, pela primeira vez. Acho que não adianta muito, como grande parte dos tratamentos de beleza, mas hidrato, limpo, enfeito. Toda mulher que nunca foi muito bonita sabe descobrir uma arma. Aquela que nenhuma bonita de verdade vai conseguir alcançar. Por isso não gostamos das pessoas lindas por natureza. Por isso que sentimos preconceito com os ex-feios que ficam bonitos iguais aos bonitos. Adoramos os excêntricos.

Um papelzinho besta, rapaz. Tem tanta gente que recebe uns papéis muito piores. Telefonemas piores. Tem gente que vive situações de completo desconforto, como um tatu. Só que o Tatu foi feito pra viver em buraco, enfiado na terra. Não as pessoas.

Essa coisa de ficar pensando na desgraça do mundo para aceitar melhor as próprias desgraças é muito injusta. Mas quem quer saber de injustiça? Quem quer saber do que é certo, do que está errado? Isso não importa. Se olhar de perto, está tudo como tem que ser. A terra está girando, a gente encontra o sol, depois a lua. Ninguém vai viver pra sempre. Pra quê pensar nisso?

Puxa uma cadeira, olha pro céu e relaxa.

Diga você

4 nov

Eu converso comigo mesma e tenho dúvidas que consigo responder sozinha. Outras não. Como essa, por exemplo: o que faz as pessoas estarem tão frenéticas no trânsito, 8 da manhã? Nesses dias de horário de verão, às 8 da manhã o dia está magnífico, por falta de um adjetivo melhor. É uma luz, é uma temperatura, é uma cor, é um cheiro de coisa saudável, é uma vontade de inspirar e expirar.

Ju faz yoga, eu vejo meus bíceps aumentarem no espelho da academia, João vai nadar, Camila pedala pelo calçadão, meus pais correm pelo Bessa.

Inspira e expira.

Quando passo pela beira mar, já toda goma e botão, penso naquela água que não me banha, penso naquelas árvores que não são minhas, penso no muro de vidro que me separa de tudo aquilo e na minha vontade de transpor essa barreira que nunca se concretiza; gosto de ser observadora dessa vida que não me pertence.

Não é a cidade, sou eu. Como adolescente que não sabe como terminar namoro, eu estou sempre com um pé no precipício. Eu queria ser a rosa do pequeno príncipe, intocável e tão delicada. E no lugar disso eu sou toda força e destrambelhada.

Claro que penso porque eu faço as coisas assim. É que fico extasiada com minha própria confusão.

Antes uma chata de galochas que uma usando clogs

25 out

A bala bateu, o vento parou, o sol raiou, não raiou que importa? Não ligo mais pra nada, só queria confirmar. Óbvio que eu não sabia disso na hora exata que recebi o convite, mas sabe quando se está com fogo na passarinha? Era um tipo de festa boca livre e só para convidados. Isso não quer dizer muita coisa, mas quando estamos falando de uma festa só para convidados artistas, pensa aí. Sei que eu pensei e decidi ir com uma amiga totalmente depenada. A passarinha dela, não ela. Literalmente, se quiser imaginar melhor.

O funk-charme-nostalgia-carioca bombava na pista. A adolescência de outrem exalava qualquer coisa francesa. Achei violenta a altura do som. Mas isso pode ser porque eu estou velha. Ok. Estou exagerando, não posso ser tão velha assim. Talvez um pouquinho. Só um tantinho pro novo pé de galinha que aparece nas fotografias. Só que umas rugas de nada não têm relação direta com minha inadequação naquele lugar. Disfarcei bem. Por exemplo, nem me maquiei muito. Todo mundo sabe que excesso de pintura na cara envelhece se você é jovem demais para usá-la.

Esse papo todo não quer dizer nada. Velha, jovem, whatever. No desbunde ninguém está preocupado com celulites. Acho isso péssimo, malho que nem uma condenada e quase não tenho as malditas.

Enquanto todo mundo se diverte, eu fico dando uma de ciclope. É esse o nome, não é? Olhar de raio laser pros hipócritas que ali estavam. Não é louco isso? Muita caretice. Dei dois e foi uma comoção. Continuo sendo menina de família? Não há quem duvide.

Depois que o cartão passou e estávamos todos dentro, sei lá, preguiça até de relatar. Medo de ser vitrine porque não se faz mais gente que quer respirar o ar pelo nariz. Não estou exagerando, não se faz mesmo. Só umas passadas de mão na bunda de sempre e umas perguntas chatas e umas meninas que correm sem você querer correr.

Fui pra casa fugida, estava atrapalhando a dança do acasalamento dos amigos. Essa minha mania de antropologia. Em casa é muito melhor, sempre soube. Não porque lá tenho amor, que eu tenho. Muito menos porque lá estou segura, porque isso é óbvio. É que eu tenho uma alma urgente. Não gosto de perder tempo com o que é ruim.