Eu achava que não ia chorar. Olhava para as minhas mãos e nem pareciam ser as minhas mãos, aquelas que me acompanhavam desde que nasci, a primeira parte do meu corpo da qual senti orgulho, pela qual me apaixonei, o porto seguro da minha auto-estima. Já fui gordinha, os garotos diziam que minha beleza era exótica, mas as minhas mãos sempre foram lindas. Foi a minha avó quem falou, minha avó e toda a sua delicadeza de princesa. Quem não acredita nas princesas?
Cheia de anéis, em 40% dos dedos. Sabe quantos isso significa? Hoje passei protetor solar nelas, pela primeira vez. Acho que não adianta muito, como grande parte dos tratamentos de beleza, mas hidrato, limpo, enfeito. Toda mulher que nunca foi muito bonita sabe descobrir uma arma. Aquela que nenhuma bonita de verdade vai conseguir alcançar. Por isso não gostamos das pessoas lindas por natureza. Por isso que sentimos preconceito com os ex-feios que ficam bonitos iguais aos bonitos. Adoramos os excêntricos.
Um papelzinho besta, rapaz. Tem tanta gente que recebe uns papéis muito piores. Telefonemas piores. Tem gente que vive situações de completo desconforto, como um tatu. Só que o Tatu foi feito pra viver em buraco, enfiado na terra. Não as pessoas.
Essa coisa de ficar pensando na desgraça do mundo para aceitar melhor as próprias desgraças é muito injusta. Mas quem quer saber de injustiça? Quem quer saber do que é certo, do que está errado? Isso não importa. Se olhar de perto, está tudo como tem que ser. A terra está girando, a gente encontra o sol, depois a lua. Ninguém vai viver pra sempre. Pra quê pensar nisso?
Puxa uma cadeira, olha pro céu e relaxa.