Arquivos | dezembro, 2010

Lunar

20 dez

Não sei se eu saberia explicar.

A vontade existe, de colocar cada centelhinha dessa do que sinto virar uma edificação enorme, uma casa dos anos 70, cobogós e pergolados.

Alguém falou, ouvi, que a lua estava clara demais. É que a gente está mais perto, pensei, e olhe só que coisa mais maravilhosa: amar uma distância. Escolher e fincar o coração  no ângulo perfeito, sua maneira de ver o mundo.

Toda noite tem uns grilos festeiros e de manhã, os  passarinhos saúdam o novo dia. Doroty já dizia.

Difícil mesmo é dizer o que eu gostaria que fosse; a gente se acostuma com a falta.

Todo mundo pensa que é difícil. Ficam querendo colocar cortinas, tirar as legendas. É um tal de colocar a trilha sonora errada, quando a música deveria ser calma ela acaba sendo agitada demais.

O silêncio já tem muitos sons e isso é simples como o amor deveria ser.

Gente, olha pro céu

15 dez

Será que colchão é como malha velha, que esgarça e cresce? Que tem prazo de validade eu já sei. Dez anos, eles anunciam. Dez anos de garantia. Uma garantia que não vale se você trepar em cima, ou dormir, ou cochilar no meio da tarde. Fazendo tudo isso, dura pelo menos 3. Se você dividir o preço astronômico que cobram por um punhado de molas e aquela caixa de cupim que chamam de cama, é como se você pagasse 3 reais para dormir toda noite. Em média. Isso quer dizer que pode ser mais ou menos. Depende do quanto sua coluna vai agüentar.

A minha coluna não agüenta mais. Mas o que incomoda mesmo é que o danado não cabe mais no Box, fica saindo por todos os lados. Não consigo entender quem consegue dormir em um colchão flutuante que dirá em um colchão que sai pelas laterais. Bons tempos das camas tradicionais. Todo dia a mesma coisa. Empurra, mede, empurra, bate, empurra, estica, empurra me jogo, empurro não me mexo, empurro, droga, esqueci de ligar o ventilador, empurro apago a luz, empurro ufa.

Duvido que alguém que sinta dor de cabeça todo santo dia tenha coragem de escutar muita besteira. Ou viver muita besteira. Para uma pessoa que sente dor, o ideal seria a ordem pura. A ordem como um consenso. Coisa linda. Pessoas educadas, gentis, elegantes. Seria o fim de homens machistas ou mulheres idem. O fim de pessoas que furam fila, de pessoas que sentam no banco reservado para idosos etc, seria o fim das celebridades de redes sociais. Sabe? Seria o fim das mulheres que mostram calcinha e dos homens que ainda procuram aquela mulherzinha pra casar.

É muito esforço que se faz para gostar de gente.  Gente nem tem instinto animal. Gente gosta de hipocrisia, de ser contra homossexuais ou aborto. Me dá um dorflex. Gente aceita a estupidez dos preços do aluguel. Neosaldina. Na hora de pagar conta em bar, não importa se você tomou todo o espumante do mundo, é de praxe deixar “trintinha”. Advil. Gente escuta o chefe contando piada infame e sexista e faz cara de quem está achando legal porque ainda existe quem acha que lugar de mulher é no atendimento. Gente.

São só alguns centímetros, toda noite. Empurra, bate, mede, deita e começa tudo de novo.

Solstício

2 dez

Eu achava que não ia chorar. Olhava para as minhas mãos e nem pareciam ser as minhas mãos, aquelas que me acompanhavam desde que nasci, a primeira parte do meu corpo da qual senti orgulho, pela qual me apaixonei, o porto seguro da minha auto-estima. Já fui gordinha, os garotos diziam que minha beleza era exótica, mas as minhas mãos sempre foram lindas. Foi a minha avó quem falou, minha avó e toda a sua delicadeza de princesa. Quem não acredita nas princesas?

Cheia de anéis, em 40% dos dedos. Sabe quantos isso significa? Hoje passei protetor solar nelas, pela primeira vez. Acho que não adianta muito, como grande parte dos tratamentos de beleza, mas hidrato, limpo, enfeito. Toda mulher que nunca foi muito bonita sabe descobrir uma arma. Aquela que nenhuma bonita de verdade vai conseguir alcançar. Por isso não gostamos das pessoas lindas por natureza. Por isso que sentimos preconceito com os ex-feios que ficam bonitos iguais aos bonitos. Adoramos os excêntricos.

Um papelzinho besta, rapaz. Tem tanta gente que recebe uns papéis muito piores. Telefonemas piores. Tem gente que vive situações de completo desconforto, como um tatu. Só que o Tatu foi feito pra viver em buraco, enfiado na terra. Não as pessoas.

Essa coisa de ficar pensando na desgraça do mundo para aceitar melhor as próprias desgraças é muito injusta. Mas quem quer saber de injustiça? Quem quer saber do que é certo, do que está errado? Isso não importa. Se olhar de perto, está tudo como tem que ser. A terra está girando, a gente encontra o sol, depois a lua. Ninguém vai viver pra sempre. Pra quê pensar nisso?

Puxa uma cadeira, olha pro céu e relaxa.

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